Seguidores

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

QUANDO SE TEM UMA MÃE DE 96 ANOS E, AINDA POR CIMA, “ATREVIDA”




Eu neste momento gostava de ter capacidade para dar a este texto um jeito de tal forma que pudesse ser lido com o realismo que merece.  Irei tentar:

Como alguns amigos sabem, minha Mãe, que completará 96 anos no próximo dia 6 de Dezembro, caíu e partiu o fémur  há, sensivelmente, dois meses e meio .  Foi operada e, apesar da idade,  o quadro clínico dela tem sido surpreendente, porque o resultado dos exames a que tem sido submetida, antes e depois da operação, é sempre magnífico. Obviamente, teve de 'alojar' no femur alguns parafusos...

A recuperação física, depois da operação, embora lenta, está a ser muito boa, porque segue uma evolução positiva, contínua. Minha Mãe já se movimenta pela casa, dum lado para o outro, razoavelmente bem, mas há coisas que não poderá, nem deverá, fazer. Mas ela faz. É aquilo a que podemos chamar uma  “senhora muito atrevida”. Atira-se de cabeça às coisas com uma audácia que causa aos outros uma preocupação muito grande, constante.

Minha Mãe vive com minha irmã em Portugal e é ela quem está a suportar a dura tarefa, sobretudo neste momento, de tomar conta dela, o que – digamos em abono da verdade – compreenderão…, não é nada fácil porque existe um factor desestabilizador, i.e., um teimoso “atrevimento” a dar cabo da ordem natural a dar ao dia-a-dia duma senhora nas condições dela. A sua ânsia de viver, de movimentar-se, saír como sempre fez - e agora não pode - conduz a uma situação delicada no que se refere à pessoa que está a cuidar dela. É que ela não pode, nem deveria, fazer certas coisas, mas com ela nunca se sabe o que será que vem a seguir. Tanto para dar um exemplo, minha irmã, habituada que estava às suas saídas diárias, à tarde, independentemente de qualquer tempo que fizesse fora de casa, por vezes insistia com ela para não saír e a minha Mãe, sorrateiramente, abria a porta da rua e “ala morena que se faz tarde”. Partia sem dar cavaco. E isto porquê? Porque ela quer continuar a viver segundo um padrão a que se habituou ao longo dos anos, após a morte de meu Pai: o de ser livre e auto-suficiente.

A cama onde minha Mãe passou a dormir, depois da factura do fémur, tem grades e é muito alta. Ela tem de ser erguida por alguém para que possa deitar-se ou saír dela. Ora, estava eu ao telefone com a minha irmã, há cerca de uma hora, e minha Mãe levantou-se do sofá onde estava, ao lado da minha irmã, porque teve necessidade de ir ao quarto de banho. Estranhando o facto dela estar a demorar a voltar para a sala, minha irmã disse-me para esperar um momento que iria ver se ela estava bem. Qual não é o seu espanto (e o meu!), quando viu que minha mãe já se tinha deitado sozinha. Ficou aflitíssima e perguntou-lhe: 

- Oh Mãe, como é que conseguiste ir para cima da cama?
- Então, facilmente: pus a cadeira junto da cama, pus-lhe um pé em cima, trepei para cima da cama e  deitei-me.

Ora agora digam-me lá se alguém pode sossegar com uma Mãe atrevida? 

Maria Letra

Sem comentários: